Conto Inédito: A Sereia (Parte 1)
- Gabs Marques

- 18 de jul. de 2020
- 6 min de leitura
Esse tive que dividir em duas partes para não ficar tão cansativo de ler, mas espero que gostem!

O vento salgado do mar me abraçava conforme comemorávamos nossa vitória. Depois de muito planejamento, finalmente tínhamos conquistado a mais nova embarcação da Marinha, que pertencera a um famoso pirata inglês. Era uma fragata longa, com três mastros, uma ilha da popa elevada, desenhos intricados no timão e por toda amurada, como um anel de proteção. Na proa, uma sereia de longos cabelos encarava o mar, com detalhes tão realistas que, quando eu subira a bordo, achara que ela respirava suavemente.
The Siren’s Howl, como era chamado, havia navegado mais mares do que eu ou minha jovem tripulação poderia contar. Diziam até mesmo que seu capitão, que fora enforcado pelo exército, conseguira ir para o plano dos mortos e voltar com tesouros inimagináveis. As lendas comentavam que os desenhos na amurada eram feitiços de proteção, para que navio nenhum o destruísse; e no timão, para que os ventos sempre estivessem a seu favor. De qualquer maneira, tratava-se de um belo e robusto navio. A sereia da proa, diziam, servia para atrair navios repletos de tesouros para serem pilhados pela sua tripulação.
— Maxime, venha, a capitã está abrindo seu rum para nós! – chamou uma das marujas, puxando-me pela mão. Abri um sorriso de contentamento. Ninguém nos pararia agora que tínhamos conseguido o Siren.
A noite não tardou para chegar. A maior parte da tripulação já havia se recolhido para suas redes nos níveis inferiores e a embarcação deslizava pelo mar como se puxasse um tecido de diamantes, que refletia o céu estrelado. Eu estava no timão, conduzindo o navio com tranquilidade e observando o horizonte. Tínhamos o hábito de revezar as vigílias, para que todas pudessem dormir pelo menos algumas poucas horas. Só nós sabíamos como ficávamos insuportáveis se não tivéssemos esse tempo de descanso.
Ouvi passos vindos da cabine da capitã, cujo nome era Kenna, e ela surgiu segundos depois, subindo as escadas para a ilha da popa e abrindo o telescópio que carregava na pequena bolsinha de seu cinto. A pele de ébano tinha um brilho levemente dourado por conta da lamparina a óleo que estava pendurada no mastro atrás do timão, para iluminar o pequeno espaço.
— É melhor ir dormir, Maxime. Deixe que eu cuido daqui por diante.
— Tem certeza, capitã? Você dormiu pouco esses últimos dias.
Ela dispensou com um gesto.
— Absoluta. Vá e descanse.
Fiz uma curta reverência e desci, caminhando até a proa por um momento. Queria sentir como se voasse por alguns minutos antes de realmente ir dormir.
Subi na amurada de madeira, deixando minhas pernas penderem para o nada e comecei a trançar meu cabelo distraidamente. Tinha tentado usar uma das técnicas para mudar sua cor loira, mas devia ter feito algo errado, já que acabara ficando com uma cor meio rósea, como quartzo. A sereia de madeira permanecia imaculada ao meu lado, seus braços abertos como se tentasse abraçar o mar.
Como sentia a mesma coisa que ela. Eu era livre demais para ficar em terra firme, ainda mais quando haviam tantas fantasias e aventuras para viver ali fora. Tínhamos ido ao fim do mundo e voltado; havíamos cruzado com monstros marinhos e sobrevivido. E eu nunca me cansaria daquela vista.
— Lindo, não é?
— Sim, com certeza. – Virei para responder à capitã.
Mas ela não estava ao meu lado. Nem ninguém.
— Eu nunca me canso de olhar.
A voz falou novamente. Olhei em volta, mas não tinha ninguém. Kenna permanecia em seu posto no timão, olhando para bombordo distraidamente. Olhei para baixo, talvez alguma mulher estivesse numa das portinholas onde ficavam os canhões em caso de ataque. Mas não tinha ninguém ali também.
— Quem é? – cochichei, erguendo os olhos. Só havia eu e a sereia de madeira. Soltei um muxoxo debochado. Madeira não fala.
Mas então a escultura virou seu rosto para mim.
— Você pode me ouvir?!
Ela está falando?! Não podia ser verdade. Será que fui para minha rede e esse é um sonho doido? É, podia ser isso mesmo. Belisquei o braço, soltando um xingamento baixo e voltei meus olhos em sua direção, somente para confirmar que não havia enlouquecido.
Ou havia e não sabia.
Fato é que a sereia me encarava de volta, em expectativa. Eu devia responder?
— Você pode falar?
Um sorriso cheio de vincos surgiu.
— Nunca um pirata conseguiu me ouvir antes!
— Talvez porque seria loucura assumir que madeira fala.
— Eu nem sempre fui assim.
Um silêncio se estendeu. Ela virou os olhos em direção ao mar e, apesar de sem pupilas, imaginei que ela estivesse encarando aquela imensidão com um olhar nostálgico.
— Quem é você? – perguntei.
Ela suspirou longamente.
— Darya. – Ela balançou a cabeça em descrença, me encarando. – Não consigo acreditar que finalmente alguém está me ouvindo!
— Há quanto tempo está aí?
— Anos? Séculos? – Ela deu de ombros, descolando-os ligeiramente da madeira escurecida da embarcação. – Quem sabe? Não lembro de ser presa aqui.
Ficamos quietas novamente, ao ponto de eu achar que a conversa nunca havia ocorrido. Mas então a cabeça de madeira se virou na minha direção novamente. A ausência de pupilas era inquietante.
— Será que você tem alguma magia em você? Por isso consegue me ouvir? – seus olhos cintilaram, se é que era possível. – Por acaso seus pais tem alguma coisa assim...
Dei uma risada desgostosa, cruzando os braços.
— As únicas coisas que minha família de sangue tem é a imensa capacidade de encher a corrente sanguínea de tanto ópio que não consegue levantar do chão depois.
Lembrava claramente disso. Nunca conhecera minha mãe. Segundo meu pai, quando ele estava mais lúcido, ela morrera após eu completar um ano de vida. Ele era um comerciante e me vendera para uma casa de prostituição em troca de dinheiro para comprar mais ópio para si. Se não tivesse me alistado para a tripulação dois anos atrás, era capaz de eu mesma ter me tornado uma usuária ou ser forçada a dormir com os clientes para pagar minha “dívida”.
Então, tecnicamente, éramos somente eu e meu pai. Mas era mais fácil ser somente eu, nunca fomos próximos para eu considerá-lo “família”. A palavra parecia pedir um vínculo mais forte, e sangue não era o suficiente para isso. A tripulação era mais ligada a mim que aquele homem jamais seria.
— Sinto muito por isso – disse Darya.
Dei de ombros, tentando afastar os pensamentos.
— Não foi culpa sua... – Parei. – Magia... você foi enfeitiçada? Por quem?
Ela fez uma careta.
— Não... lembro... - grunhiu, em desalento.
— Maxime, o que está fazendo aí ainda? – gritou a capitã, da popa. – Vá dormir de uma vez, o dia amanhã será agitado!
— Sim, capitã!
Desci da amurada com cuidado e olhei por sobre o ombro para a sereia da proa.
— Vou descobrir quem fez isso com você.
Como bem dissera a capitã, o dia seguinte foi agitado. Tivemos que limpar todo o convés e interior do navio, parando somente por alguns minutos para comer alguma coisa. A embarcação era imensa e no sol que fazia, a tarefa parecia mais árdua ainda. Tentei me aproximar da proa algumas vezes, para conversar com Darya, mas em vão; o único momento que realmente tive paz foi novamente na troca de turnos, de noite.
Sentei novamente na amurada da proa, aproveitando o cheiro salgado do mar enquanto as duas vigias conversavam na ilha da popa. Havia ainda uma menina na cesta da gávea, no mastro principal, observando o horizonte em busca de terra firme. No curso que íamos, chegaríamos numa das ilhas caribenhas em alguns dias.
Não demorou muito para ouvir os estalos da madeira conforme Darya virava para me encarar.
— Teve um dia cheio hoje?
— Como sempre – respondi com uma risada, apertando meu ombro para aliviar a dor que sentia ali. – Lembrou de mais alguma coisa sobre seu passado?
— Lembro de falar com outros piratas ao longo dos anos, tentando chamar a atenção, mas eles não me ouviam de jeito nenhum... – ela parou e olhou o horizonte. – Um chegou a me ouvir uma vez, mas acharam que ele era louco e o jogaram da prancha.
Arrepiei. Esperava que, se chegasse ao ponto de comunicar sobre a sereia falante na proa, Kenna não pensasse a mesma coisa. Eu tinha apreço pela minha vida.
Encarei a estrutura à minha frente, cujos olhos encaravam o mar. Conforme os segundos se passaram, sem que nenhuma de nós falasse, Darya começou a cantar baixinho, completamente alheia a minha presença, as letras deslizando de sua boca e se dissipando com as espumas contra a estrutura no Siren.
Aqui você vai ficar.
Não sairá mais desse lugar.
Ninguém te escutará
A menos que seja seu igual.
A única forma de se libertar
será se queimar até o final.
Arregalei os olhos, me dando conta subitamente.
— De onde surgiu essa música?
— Ela sempre esteve comigo... – murmurou, sem me olhar. – Pelo menos, desde que vim parar aqui...
— Darya! – gritei, fazendo a madeira soltar um estalo alto de surpresa. Olhei por sobre os ombros e vi a vigia esticar o pescoço e gritar se eu estava bem, ao que respondi com um gesto. – É isso!
— Isso o quê?
Mas minha mente ia a mil com a possibilidade. Sorri conforme um plano surgia em minha mente.
— Sei como te tirar daqui.



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